Educação

Diocese de Limeira

Publicado dia 01/03/2020 às 19h14min
Reflexão sobre a Campanha da Fraternidade 2020 - por Dom José Roberto Fortes Palau

A Quaresma é o tempo do ano litúrgico no qual a Igreja faz um convite mais intenso à conversão de vida. No Brasil, este período é marcado pela Campanha da Fraternidade, que começou em 1962, regionalmente, na cidade de Natal/RN; e desde 1964 é realizada em âmbito nacional, pela Conferência Nacional do Bispos do Brasil. Eis algumas palavras do Papa Francisco, hoje, em Roma, destacando a importância da Campanha da Fraternidade, que acontece no Brasil: "Alegro-me que, há mais de cinco décadas, a Igreja do Brasil realize, no período quaresmal, a Campanha da Fraternidade, anunciando a importância de não separar a conversão do serviço aos irmãos e irmãs, sobretudo os mais necessitados (…)". 

Neste ano de 2020, a proposta é de cuidado e compromisso com a vida, em todas as suas instâncias. O tema é: "Fraternidade e Vida: Dom e Compromisso". E o lema: "Viu, sentiu compaixão e cuidou dele" (Lc 10, 33-34).

Segundo Dom Valmor, Arcebispo de Belo Horizonte e Presidente da CNBB, a pergunta que deve nortear a Campanha deste ano é: "o que está acontecendo conosco? O que vem ocorrendo com a humanidade, que, embora percebendo o aumento dos números de sofrimentos, parece não mais sensibilizar-se com eles? Teríamos deixado se perder o sentido mais profundo da vida? (…) Por que vemos crescer tantas formas de violência, agressividade e destruição? Perdemos, de fato, o valor da fraternidade?". É uma Campanha que nos interpelará, na prática, sobre o sentido que estamos atribuindo à vida nas suas dimensões: pessoal, comunitária, social e ecológica.

A inspiração para esta Campanha é a imagem do Bom Samaritano, apresentado por Jesus no trecho do Evangelho de Lucas ao qual o lema da Campanha 2020 remete. O que fez o Bom Samaritano parar e interromper sua viagem? Foi a sensibilidade ao sofrimento alheio. O seu "olhar compassivo" que foi capaz de enxergar um pobre homem ferido e abandonado à própria sorte à beira do caminho. Um olhar que não se deixou vencer pela indiferença. O olhar do samaritano é o que podemos chamar de "olhar humanizado". Pois quando somos incapazes de percebermos e compadecer-nos da dor alheia, infelizmente, tornamo-nos "desumanizados".

Por isso mesmo, a Campanha proclama a inviolabilidade da vida humana. Não se pode viver passando distante das dores de nossos irmãos e irmãs. Não podemos ser indiferentes a tudo aquilo que ameaça e destrói a vida em todas as suas dimensões. Somos interpelados a recuperar o valor do compromisso cristão: devemos cuidar uns dos outros e juntos cuidar de nosso planeta, nossa Casa Comum. É urgente testemunhar e estimular a solidariedade (cf. Mt 25, 45). A fé cristã leva necessariamente à ação, à fraternidade e à caridade.

O texto base da Campanha destaca três verbos que devem nos conduzir durante este tempo quaresmal: ver, sentir compaixão e cuidar.

Somos convidados a "ver", isto é, a olhar as pessoas e toda a realidade que nos circunda com atenção, e não será difícil perceber como a vida está ameaçada em todas as suas dimensões: pessoas vivendo em situação de miséria, em áreas de risco; jovens dominados pela dependência química; homens e mulheres estressados (o Brasil é considerado o país mais ansioso e estressado da América Latina); alta taxa de suicídios (em 2016, no Brasil, houve 11.433 mortes por suicídio, ou seja, 31 casos de suicídio por dia); alto índice de acidentes de trânsito com mortes e casos de invalidez permanente; o aumento dos casos de feminicídio; a difusão de notícias caluniosas e raivosa nas redes sociais (as fake news) que destroem a boa fama alheia; o individualismo exacerbado, a violência generalizada; a agressão ao meio ambiente; entre tantas outras formas de violência à vida. É notório como necessitamos superar a indiferença, a discriminação, a intolerância e o ódio. Nosso olhar de cristão não é um olhar desiludido e pessimista. Pelo contrário, ao olhar a realidade que nos cerca, queremos transformar essa mesma realidade com novas atitudes, que promovam uma nova cultura do cuidado, baseada na fraternidade, na solidariedade, que permita-nos superar o egoísmo e a indiferença reinantes.

Após "ver", somos convidados a "sentir a compaixão de Jesus", a romper com a indiferença. Na parábola do Bom Samaritano, o olhar que Jesus nos ensinou é o olhar daquele que se compromete com o necessitado. Um olhar não interessado em si mesmo, mas no bem do próximo, seja ele quem for: simpático ou antipático, de qualquer etnia ou religião. Nesta Quaresma somos convidados a exercitar esse olhar de Jesus. Porém, esse novo modo de olhar as pessoas e a realidade criada precisa gerar e promover a vida, defendê-la e dela cuidar desde a fecundação até a plenitude. Não somente a vida humana, mas também todas as outras formas de vida, respeitando e preservando a natureza. É um "olhar de fraternidade". Como exemplo, o texto base da Campanha lembra a vida e obra da "Dra. Zilda Arns", fundadora da Pastoral da Criança e da Pessoa Idosa. Dra. Zilda viveu para defender e promover as crianças, gestantes e idosos, e assim construir uma sociedade mais justa, fraterna, com menos doenças e sofrimento humano. Mobilizou a todos: pobres e ricos, analfabetos e doutores, na busca da Vida Plena para todos. 

Por fim, após "ver" e "sentir compaixão", somos chamados a "agir". Aprendemos com o Bom Samaritano: meu próximo é aquele que precisa de minha ajuda. Mas não basta se aproximar de qualquer modo. É preciso descer da montaria e oferecê-la a quem está ferido à beira do caminho e que precisa urgentemente de cuidados. Isso implica empregar nossos melhores recursos, humanos, materiais e espirituais para que aqueles que estão desfigurados pela dor possam reencontrar com o auxílio da fraternidade, a dignidade da vida. Essa é a nossa missão; missão de todos nós cristãos, missão da Igreja. A Igreja de Jesus Cristo é a hospedaria para onde foi levado o homem ferido, abandonado à beira do caminho. O Papa Francisco afirmou que a Igreja é como um "Hospital de Campanha", sempre pronto a recolher os feridos, os machucados, pelas vicissitudes da vida. Certamente, a maior contribuição que podemos dar a uma sociedade marcada pela indiferença consiste em incansavelmente anunciar que o sentido da vida se encontra no amor, o qual se traduz no cuidado para com os que sofrem.

A Campanha ainda faz menção especial a santa "Dulce dos Pobres", que serve de inspiração e exemplo de cuidado com o próximo para todos nós, brasileiros e brasileiras. Santa Dulce teve a capacidade de ser "presença samaritana" na realidade brasileira. Certa vez, ela disse diante do sofrimentos de tantas pessoas abandonadas: "As lágrimas enchiam meus olhos (…). O meu coração estava invadido pela dor em ver tanta miséria ao meu redor”. Diante de tanto sofrimento, ela não permaneceu de braços cruzados, mas agiu, atendendo as necessidades urgentes dos mais pobres de Salvador (BA); acreditou na Providência divina, e hoje, sua obra de assistência à saúde é referência no Brasil inteiro.

 Que nesse tempo quaresmal, animados pelo tema da Campanha da

Fraternidade, possamos "tocar a carne de Cristo" em nossos irmãos e irmãs sofredores; assim, não seremos meros ouvintes, mas estaremos, de fato, praticando a Palavra do Senhor, como verdadeiros discípulos missionários. Amém.

 Por: Dom José Roberto Fortes Palau, Bispo de Limeira

Fonte: Portal Diocese de Limeira

Mais Populares

A mulher é quem dá harmonia

17 de fevereiro de 2020 |   479

Deus não fecha nenhuma porta

29 de janeiro de 2020 |   453

Depressão no altar:

02 de março de 2020 |   273

ÚLTIMAS Notícias

Papa Francisco:

27 de março de 2020 às 20:46:59

RETIRO DE CURA INTERIOR PARA MULHERES

20 de março de 2020 às 21:06:54

Diocese de Limeira

20 de março de 2020 às 00:08:48



Fale Conosco

Limeira
| | (19) 9828-50411
contatoredecatolicadewebradio@gmail.com